O Fim do Mito: A Sociedade dos Sísifos Felizes
Albert Camus legou-nos uma das imagens mais poderosas e resilientes da filosofia do século XX, um Sísifo feliz. Condenado para sempre pelos deuses a empurrar uma rocha até ao cume de uma montanha, vendo-a rolar invariavelmente para baixo, Sísifo encontra a sua vitória no momento da descida. Naquele breve intervalo, livre do peso da rocha, ao olhar a sua tortura de frente, com desprezo e lucidez, torna-se superior a ela. “É preciso imaginar Sísifo feliz”, conclui Camus.
É uma ideia bela, quase uma oração secular pela dignidade humana. Mas será esta felicidade, encontrada na consciência da própria ausência de esperança, focada no presente, liberdade? Poderá apenas a mais sofisticada das prisões, a prisão do cativo, levar a aprender o amor pelas suas próprias grades?
A liberdade não deve ser apenas um valor imaterial, uma atitude interior. Se assim for, corre o risco de se tornar numa ilusão de virtude, uma forma de auto-engano tornando-nos escravos das nossas condicionantes enquanto nos felicitamos pela nossa força interior. Isto hoje acontece. Esta imagem do Sísifo feliz e resignado é, talvez, a ideal para a sociedade do século XXI. Ensinam-nos a aceitar, a ser resilientes, a encontrar alegria nas pequenas coisas, enquanto empurramos as nossas rochas diárias em trabalhos repetitivos e sistemas estanques. Não os podemos mudar. O sorriso de Sísifo, vitorioso apenas para ele, é o sorriso do autómato perfeito. Para os Deuses, a observar de longe, o espectáculo é o de uma obediência exemplar. A pedra continua a ser empurrada.
Para entender os limites desta liberdade interior, talvez tenhamos de sair da mitologia e entrar na brutalidade da História. Em “A Comissão das Lágrimas”, António Lobo Antunes mergulha-nos no trauma da Guerra Colonial Portuguesa, um universo de memórias fragmentadas e de uma violência perene na memória do tempo. Puxemos uma cadeira neste cenário destruidor para nos sentarmos ao lado de Virinha, uma mulher torturada pela PIDE/DGS devido ao seu envolvimento com os movimentos de independência em Angola (MPLA). O seu corpo é subjugado, a sua liberdade exterior é aniquilada. Acto após acto de tortura, ela faz algo impensável. Elvira canta.
O que acontece, de facto, neste canto? É um acto de imensa liberdade, a última trincheira da sua humanidade onde os torturadores não conseguem tocar. O canto contudo não pára a dor, não parte as correntes. A sua liberdade interior, por mais absoluta, existe em paralelo com a sua total subjugação física. Virinha é a versão humana e trágica de Sísifo. O seu canto, tal como o sorriso de Sísifo, é a afirmação de um Eu em recusa a ser destruído. Mas a realidade da opressão permanece intocada.
Precisamos aqui questionar a premissa de Camus. Uma atitude tão radical perante o sofrimento requer, ou não, um acto de fé? Basta-se o presente? Não fé em Deus, necessariamente, mas uma fé radical na dignidade humana, um valor quase transcendente, porque não há já aqui uma noção palpável de presente, antes uma eternidade eminente na condição humana, o tempo esfarela-se. Camus evita a palavra, mas a energia motriz de Virinha e Sísifo é a de quem acredita em algo para além da sua condição material. Se imaginamos somente um Sísifo feliz, talvez se imagine apenas um parvo ou, pelo menos, uma não componente do real.
Por isso a verdadeira liberdade não estará nesta espécie de efabulação do sorriso de Sísifo, mas no seu oposto. Tenho para mim, a ser isso a liberdade, mais valer sê-lo com algum grau de infelicidade. A infelicidade honesta, a raiva, a frustração de quem empurra a rocha e se recusa a sorrir, é este o sinal de uma rendição ainda não instalada. Melhor, ele não podia mas nós podemos, não empurremos a rocha e então esbocemos um sorriso! Cantemos como a Virinha, cada vez mais alto. É a prova da possibilidade de uma outra realidade, uma onde a rocha é destruída, não apenas aceite.
A sociedade apreendeu bem a chave para a liberdade do indivíduo, vende-nos a felicidade de Sísifo como meta. O seu sorriso, lembremos, é um acto privado, uma vitória silenciosa reconfortante para o indivíduo sem nunca ameaçar os Deuses. O canto de Virinha, pelo contrário, é um acto público. É um som invasor do espaço do torturador, força o confronto com o apagamento da humanidade. O verdadeiro acto de liberdade não passará assim por convencer-mo-nos do absurdo, afinal não somos felizes na nossa condição. Forcemos o mundo a ouvir o nosso canto de dor. O som enquanto prova, apesar de tudo, de ainda não sermos a pedra, carregada pela falta de futuro. Talvez o absurdo não resolva algo.


